quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Horizontal é o meu desejo.
Meu abismo é horizontal.
Horizontal a altura que me determina.
Como horizontal é este amor que resiste:
Horizonte e Tao.
Endomingável

por que no domingo a água
tem outra velocidade
e é feriado nacional
em nossas vísceras?
por que no domingo
o amor é mais lento, baldio,
vadiado
e os corpos pesam
10 gramas menos?

por que no domingo
há este insético zumbido
nas retinas?
por que este vazio grávido
de tudo – oco sem beira, espera
do quê, meu deus?

por que nossas mãos ficam
quase cristalinas?
por que a ordem natural pode ser
suspensa e de uma crisálida
irromper um pássaro?
por que as árvores cantam
um tom abaixo?
e os cães latem noutra língua?
e as crianças, cavalgando
desilusões de não ser ainda, calam
desentendimentos?
por que o amor, ósseo, dói como flor
nascendo
sobre o ombro esquerdo
e a vida respinga das páginas
que viramos quando lemos?

não há consolo necessário,
domingo não é preciso.

domingo não é um dia,
apenas mais um dia.

domingo é uma semana,
domingo é a vida inteira


lu cañete + rodrigo madeira
Ela sou eu mais adiante.
Eu sinto, eu sei, eu sonho.
Ela me vê em si já encoberta de novas coisas incompreensíveis pros meus pequenos olhos de esquimó.
Ela caiu de pára-quedas e não pude devolvê-la pro alto.
Ela aterrisou com sua bússola estragada e seus mapas de cabeça para baixo(que inexplicavelmente a levam exatamente aonde deveria chegar), seus vasos úmidos e dezenas de latas arcaicas e não pude evitar.
Às vezes ainda sinto um medo, um estranhamento que cada dia parece menor, mais longínquo.
Ela sabe esse labirinto vegetal no meio da cidadezinha, o que já é quase um código secreto.
Porque também eu me desacreditei, porque também eu me impedi.
Já é época de borboletas e mariposas sairem dos casulos e também nós, de nossos medos.
E também nós.
A primavera não perdoa o desdesabrochar, nos obrigará sempre a florir.

domingo, 16 de novembro de 2008

Nós infinitamente


infinitesimal

Pequeninos, minúsculos, ínfimos,
Nanotecnólogicos, microscópicos,
Invisíveis, efêmeros, fragilissimos:
Nossos amores
Quando deveriam ser
Nossos temores.
Fui povoando de sonhos uma casa. Cresceu mais que tudo o que houve na cidade. Pelas costas sempre outras coisas. Vamos cavalgar as flores de pétalas adjacentes e sumergir depois em pequenos vidros de geléia. Vamos cortar a grama do jardim que nunca tive e soltar os cães de minha infância. Há também uma visita a ser feita, pro labirinto de cerca-viva incendiado por delinquentes juvenis – talvez meus primos. Foi e não volta, sim? Não explicaremos nada. Não há tradução nem língua possível para essas dores e contrangimentos de abandono. Eu não te teria deixado e deixei. Eu teria suplicado a tua presença se tivesse 17 anos, mas estamos velhos para esse amor desesperado, ele soará tão falso quanto o adeus que não me quiseste dar. Vamos para serra, será? Vamos praquele lugar da ponte. Vamos construir uma ponte de nós? Tá, tá , tá. Eu aceito o fim de tudo, depois que vi quando tiraram a gaiola de tucanos do Passeio Público.
Mas no sonho, paralelo ao decorrer do fim, houve uma chuva incessante, houve um salto da janela e tua voz repetindo: - Eu preciso ir embora. E a melancolia, e uma porta que não quis se abrir, mas conseguiste a chave. As rosas sem gosto só provam que foram colhidas antes do tempo.
Quem cozinha ou planta aprende que também os sentimentos tem ciclos. E se regam e adubam para que não morram.
Saudamos a primavera e suas flores paralelas, até o encontro de nossas retas pela circunferência do vasto-pequeño mundo. Sul e norte são a mesma coisa numa superfície esférica. Serão opostos apenas para quem lê mapas, planos cartesianos, não para eu que crio estradas com o que sinto e sempre tenho como ponto de chegada o coração do coração das coisas.

All cansa

A moda de atropelar doença com antibiótico,
De sufocar angústia com shopping center,
De calar amor com caixa de chocolate comprada em segredo,
de esvaziar de sentido o nosso sexto,
de descontinuar o tempo na euforia do imediato,
de se desconhecer origem e fim de nós ou tudo:
cansa.
(Essa secular fadiga se instalou, e se faz esporadicamente sobre minha alma.)
Explicar que o que se descarta não desaparece na mão do ilusionista,
Que dentro e fora se refletem sem ser mesma coisa,
Que há códigos mas também cada experiência nos impele ao aprendizado de uma nova língua,
Que gente tem formas de abrir , fechar , funcionar e emperrar conforme palavras e tons e gestos de outros:
cansa.
Mas de tudo mais me cansa
o incansável querer
o que não se alcança.