sábado, 10 de dezembro de 2011

Alguma coisa me partiu.
E não posso permancer
sobre este
carpete corporativo.

Coisa tal,
impensável,
impesável,
descolorida
e um tanto aromática.

Algo, quase sabor,
entre azedo e anis.
Quitou o que em mim
restava de telúrico.

Bexiga de gás
que escorregasse
de mão desatenta.
Vou , voo.

Como se apenas ar.
Como se umas moléculas
se tivessem expandido
a ponto de me fazer
apenas o espaço entre elas.

Arqueologia poética

Urgente:
preciso me revisitar.

Quanto pesa notar que
existo no que reside sob
(fóssil de mim)
tantas eras pessoais.

Arqueóloga do que sou,
descubro: fui melhor.

Minha juventude
podia ser mestre
do que eu hoje.

A poeta que eu era,
me supera.

Daniel Moreno, un chico muy bueno


Daniel moreno, en Playa Blanca, un chico muy bueno
que vino de Santana. Solo en la arena, se acercó más
y más.
Al partir, me dio la mano para que subiera a la lancha. Con los ojos,
negros como él, vertió la angustia:

-Me van a olvidar... tengo ganas de ir con ustedes.

No le podía subir al barco, tiene madre, padre, hermanos.
Prometí que volvería a recogerlo. Cuando aprenda a leer
una página completa del diario, dije. Prometimos llevarlo
al Mundial de Fútbol.

Daniel, moreno, un chico tan bueno.
Cómo te olvidaremos, si te hicimos la foto esta, preciosa por cierto,
sobre la sombra de nuestra tarde impotente.
Y más que la foto, cómo, si la verdad es que
ahora te llevamos dentro.

domingo, 7 de agosto de 2011

Quero #2

Quero ser serralheira,
como esse da serralheria
no caminho ao trabalho.
Um serralheiro acorda:
serralheiro.
Um serralheiro dorme:
serralheiro.
E, se o telefone toca na casa-serralheria,
ele atende:
- Serralheiro.

Mas esta que escreve:
dorme uma coisa,
acorda outra.
Trabalha no banco,
dá aulas
de uma língua estranha,
para que as pessoas
falem com gente
que não conhecem.
Escova os dentes: namorada.
Entrou no ônibus: passageira.
Passou da catraca: maestrita.
Tem reunião às 4pm: treinadora.
Casa da mãe: filha.
Hoje é dia dos pais: orfã.

Enquanto isso,
o serralheiro:
serralheiro.

Quelo #1

Quelo ser amiga de um chinês de pastelaria. Eles existem aos montes, invisíveis, pelo centro da cidade. Mas não convivem.
Nem comigo, nem com você que me lê, arrisco. Ninguém que eu conheça, conhece intimamente um chinês de pastelaria.
Nome e sobrenome, quando muito. Eu quero também o dos filhos e da esposa, e saber no mapa, a cidade onde nasceu. Agora dei por, quando vou a uma festa de amigos, procurar um chinês de pastelaria entre os convidados. Um certo sentimento de nazismo às avessas me toma: me relaciono com a calda espessa da miscigenação, mas o milenar e oriental, tão puro e uma mesma coisa, não participa. Esses, de nação distante, servem apenas para fritar pasteis, vender doce e dizer “tloco, tloco”. Eles não estão na universidade, nem nas eleições, poucas vezes num supermercado e algumas outras a jogar pipoca pras malditas pombas da Santos Andrade. “Claro, são eles que não se misturam , não aprendem a língua, se organizam em pequenas máfias de distribuidoras de doces e pastelarias” – você pensa surpreso. Mas o mistério engordurado do outro lado do balcão permanece. E eu continuo desejando um amigo chinês de pastelaria.

ressaca

Depois do amor
inundar,
veio este
seco silêncio
onde fui encalhar.

Eu sequei,
de tanto escoar.
Seco o céu,
seca a cama,
seco o doar.

Convoco saliva,
parece que
não vai dar.
Como não sou
baleia,
nem o greenpeace
vai ajudar.

Ressecada
e sem som:
espero
a maré
mudar.

Ou será,
esta secura,
um recuo
de tsunami
que voltará
para nos
inundar?

Infiltrado

Infiltrado

O amor é essa infiltração
no canto da sala.
O mofo preto pontilhando,
silencioso,
a branca aresta da parede.
O amor desaperfeiçoa
nossa pintura intacta.
Vai, aquoso, abrindo
caminhos inconcebíveis
no sólido,
na solidão.

Essa infiltração amorosa
no cantinho da sala
fungifica o aparente,
amolece o que mascara
e imprime
uma amorável paisagem
na casa.

Dia do pai

Pai, afasta de mim o próximo domingo.
É data comercial, bem sabemos.
Mas essa palavra,
que já não posso usar como vocativo,
por todos os lados.
E tu, ao lado de cartaz nenhum
estás.
Eu, que só visitei teu túmulo
uma única vez, pra trocar as
flores de plástico por um ramo
amarelo e fresco, não vou lá
com mais frequencia porque
moro longe.
E mais que isso,
porque te levo sepultado em mim.

Podia inumerar lembranças,
mas quero agradecer a tua ausência.
Por ela te reinvento e revisito
infinitas vezes.
Isso te me faz eterno.

Este poema, pai,
celebra tua ausência
que é toda a presença
que tenho de ti.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

foragida do um conto de fadas que nunca existiu

Uma soldadinha

de chumbo derretido

ia com seu

capacete de água,

seu escudo de pétalas

e a espada de pluma:

armadura de ar completa.

Vestia-se de um tudo

que nada esconde.

Destemida ia, a

amaciar o vento

com a pena-espada.

Vento que,

de sua airosa armadura,

a despia e re-vestia

a cada passo.

para los libros, necesito los números

lo siento,

los números que deseas

no te los puedo dar.

no los tengo,

nada de ellos sé.

si son números,

son universales.

pero yo,

efímera.

doy clases,

no sé de lo números.

enseño a la gente palabras

en una lengua que no conocen,

porque las palabras

cambian.

No son números.

De los números, sé solamente

que son.

yo sé de las palabras,

que a veces están

y otras, no.

pequena oração de poeta que estuda tradução

se sou uma palavra e não sei

escritor que me grafou,

por favor não seja covarde,

em corpus ou glossário não me guarde,

mas num verso singelo de amor.

atraversia

Padeço de mundo
no petit -pave
parada pra ver
atravessar-me
o necessário.
O mundo todo
volta no vento.
Calçada de ar alheio,
mas enxuta de si.
Existir como tudo que ali.
O mundo - pequeno pensamento -
desata dentro.
Seca e afiada
a faca fria da espera:
suportável.
Os carros escorrem
tempo que se perde
quando não deveria.

Para simplesmente cruzar,
estive grávida de lado oposto.

domingo, 6 de março de 2011

Vício

com a necessidade
de sentir você em mim
sofro de abstinência.

TecaMiranda

**********
Cura

para sentir-me em ti
vencerei a abstinência
com paciência.

Lu Cañete

Para P. V.

A dor do escritor não era minha. Já o tinha visto desfiar o passado dolorido do pai, tão rude, desabado sobre um menino frágil.
A dor do escritor não é minha. Mas me dói. Nunca chego perto do escritor, a dor dele me assusta. E depois das aulas , das palestras, dos lançamentos que assisto, fico horas em casa conversando com o escritor maltratado, privado de infância, que ele conta ter sido. Eu afago aquela criança de pernas finas, eu lhe dou livros e lhe conto histórias. Eu leio as histórias do escritor, que vieram de ausências, diz ele. Da falta que lhe preenche.
Mas quando reencontro o escritor, me encolho. A dor dele me murcha, cresce sobre minhas palavras, me retrai. E não encontro a docilidade de quando o leio. E não venço os poucos metros entre meu coração e o do escritor. Ele, presente, é também só ausência.

Olimpíada de inverno

Sobre o gelo, distante. Deslizam pernas e braços e coisa esvoaçantes e incompreensíveis. Voam os sonhos da infância que nunca criaram raízes e vêm pousar sobre meu joelho direito e encarar-me no olhos. A dizer: do que deixei, do que não acreditei, do que plantei e ninguém me ensinou a regar. É bela a lâmina afiada sobre a água sólida, é bela a perna da patinadora que não entregou os pontos. E duro reabrir o sulco, encarar a fenda deixada e nunca cicatrizada. Sentir como uma bolada de neve na cara o susto do tempo que já não te permite. E esperar derretê-la, fazer-se mais leve, maleável, tranformada a ponto de novos sonhos evaporáveis.
Aqui amanso um par de rosas selvagens incomodadas, inaptas para jardins. Não tirarei espinhos epidérmicos, pra melhor devorar teu morango partido, colhê-lo da haste em riste e roê-lo com a língua do sonho. Por isso mantidos os cardos. Senão tudo desfalece como chocolate nos trópicos. E não servem, ao desfolhar-se assim o principal da copa. Mas domarei a selvageria das rosas pra que sobrevivam no diminuto de um vaso e endereçadas ao jardim sintam-se ,apenas pelo contraste, livres como condor andino.Não sei se perfume, se raiz, se pétala. Algo sempre fica na ilusão da identidade, na ficção do que se é.
Corro o corpo sobre sopros de ti, de tudo que não alcanço e inexplicavelmente me encontra. Plantada rosa em água e vaso. Vazando a vida pelo canto direito do olho esquimó. Espero algo: notícia que virá em asas de passarinhos bem pequenos. Cada palavra em uma pena, pluma , leve a montar um pássaro como o dos poemas persas. Analfabeto e compreensível.

terça-feira, 1 de março de 2011

Há cem anos

É mais fácil ser mulher hoje, do que há cem anos. Já se pode ter o que Virginia reclamava: um teto só seu e quinhetas libras ao ano. É mais fácil ser mulher hoje, do que há cem anos. Orfãs, não-casadas, com irmãos ou sem
podemos existir hoje e não há cem. Se escrevo, já não sou mais como um cão tentando atuar. É mais fácil ser mulher hoje, do que há cem anos. Há coisas inventadas por mulheres, há empresas dirigidas por mulheres. E femininas jogadoras de futebol e condutoras de ônibus. É sem dúvida , mais fácil ser mulher hoje do que há cem anos. Mesmo no Irã, sob o véu do Islã, há algo mais macio. Um útero já não pesa nem produz como há um século.
Um homem já não se impõe como há dez décadas. E ainda que doa a liberdade, é mais fácil hoje do que há cem anos. Subimos montanhas, ganhamos o Nobel, cruzamos oceanos. Ainda não pisamos na lua, mas nos desdobramos, desdobráveis que somos, muito mais do que se imaginava há cem anos.

E por fim, com certo gosto, podemos revidar:
- É mais fácil pra um homem existir hoje
ou há cem anos?

flor nascente

Uma flor que nascendo parte o homem em dois. Esse era o antídoto. Fosse feito de dentro brotasse.O espanto desse nascimento vencendo o que se crê mais duro e por fim se abre em brecha de amor para o que nasce. O destino, das coisas que teriam que nascer quando já se anunciava o secar. O que feito foi pra irromper, nada impede. Só os os olhos de espanto sobre o que sabido era. Então que espanto? Não o pela coisa em si, mas o de saber que já tudo pressentimos, vem escrito em nós , ainda que poucos, ou mínimas vezes, nos dignamos a ler. A bula da vida que nos vem impressa, o espanto pelo esquecimento e o lembrar entranhados na flor nascente.