domingo, 7 de agosto de 2011

ressaca

Depois do amor
inundar,
veio este
seco silêncio
onde fui encalhar.

Eu sequei,
de tanto escoar.
Seco o céu,
seca a cama,
seco o doar.

Convoco saliva,
parece que
não vai dar.
Como não sou
baleia,
nem o greenpeace
vai ajudar.

Ressecada
e sem som:
espero
a maré
mudar.

Ou será,
esta secura,
um recuo
de tsunami
que voltará
para nos
inundar?

Infiltrado

Infiltrado

O amor é essa infiltração
no canto da sala.
O mofo preto pontilhando,
silencioso,
a branca aresta da parede.
O amor desaperfeiçoa
nossa pintura intacta.
Vai, aquoso, abrindo
caminhos inconcebíveis
no sólido,
na solidão.

Essa infiltração amorosa
no cantinho da sala
fungifica o aparente,
amolece o que mascara
e imprime
uma amorável paisagem
na casa.

Dia do pai

Pai, afasta de mim o próximo domingo.
É data comercial, bem sabemos.
Mas essa palavra,
que já não posso usar como vocativo,
por todos os lados.
E tu, ao lado de cartaz nenhum
estás.
Eu, que só visitei teu túmulo
uma única vez, pra trocar as
flores de plástico por um ramo
amarelo e fresco, não vou lá
com mais frequencia porque
moro longe.
E mais que isso,
porque te levo sepultado em mim.

Podia inumerar lembranças,
mas quero agradecer a tua ausência.
Por ela te reinvento e revisito
infinitas vezes.
Isso te me faz eterno.

Este poema, pai,
celebra tua ausência
que é toda a presença
que tenho de ti.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

foragida do um conto de fadas que nunca existiu

Uma soldadinha

de chumbo derretido

ia com seu

capacete de água,

seu escudo de pétalas

e a espada de pluma:

armadura de ar completa.

Vestia-se de um tudo

que nada esconde.

Destemida ia, a

amaciar o vento

com a pena-espada.

Vento que,

de sua airosa armadura,

a despia e re-vestia

a cada passo.

para los libros, necesito los números

lo siento,

los números que deseas

no te los puedo dar.

no los tengo,

nada de ellos sé.

si son números,

son universales.

pero yo,

efímera.

doy clases,

no sé de lo números.

enseño a la gente palabras

en una lengua que no conocen,

porque las palabras

cambian.

No son números.

De los números, sé solamente

que son.

yo sé de las palabras,

que a veces están

y otras, no.

pequena oração de poeta que estuda tradução

se sou uma palavra e não sei

escritor que me grafou,

por favor não seja covarde,

em corpus ou glossário não me guarde,

mas num verso singelo de amor.

atraversia

Padeço de mundo
no petit -pave
parada pra ver
atravessar-me
o necessário.
O mundo todo
volta no vento.
Calçada de ar alheio,
mas enxuta de si.
Existir como tudo que ali.
O mundo - pequeno pensamento -
desata dentro.
Seca e afiada
a faca fria da espera:
suportável.
Os carros escorrem
tempo que se perde
quando não deveria.

Para simplesmente cruzar,
estive grávida de lado oposto.