domingo, 6 de março de 2011

Olimpíada de inverno

Sobre o gelo, distante. Deslizam pernas e braços e coisa esvoaçantes e incompreensíveis. Voam os sonhos da infância que nunca criaram raízes e vêm pousar sobre meu joelho direito e encarar-me no olhos. A dizer: do que deixei, do que não acreditei, do que plantei e ninguém me ensinou a regar. É bela a lâmina afiada sobre a água sólida, é bela a perna da patinadora que não entregou os pontos. E duro reabrir o sulco, encarar a fenda deixada e nunca cicatrizada. Sentir como uma bolada de neve na cara o susto do tempo que já não te permite. E esperar derretê-la, fazer-se mais leve, maleável, tranformada a ponto de novos sonhos evaporáveis.
Aqui amanso um par de rosas selvagens incomodadas, inaptas para jardins. Não tirarei espinhos epidérmicos, pra melhor devorar teu morango partido, colhê-lo da haste em riste e roê-lo com a língua do sonho. Por isso mantidos os cardos. Senão tudo desfalece como chocolate nos trópicos. E não servem, ao desfolhar-se assim o principal da copa. Mas domarei a selvageria das rosas pra que sobrevivam no diminuto de um vaso e endereçadas ao jardim sintam-se ,apenas pelo contraste, livres como condor andino.Não sei se perfume, se raiz, se pétala. Algo sempre fica na ilusão da identidade, na ficção do que se é.
Corro o corpo sobre sopros de ti, de tudo que não alcanço e inexplicavelmente me encontra. Plantada rosa em água e vaso. Vazando a vida pelo canto direito do olho esquimó. Espero algo: notícia que virá em asas de passarinhos bem pequenos. Cada palavra em uma pena, pluma , leve a montar um pássaro como o dos poemas persas. Analfabeto e compreensível.

terça-feira, 1 de março de 2011

Há cem anos

É mais fácil ser mulher hoje, do que há cem anos. Já se pode ter o que Virginia reclamava: um teto só seu e quinhetas libras ao ano. É mais fácil ser mulher hoje, do que há cem anos. Orfãs, não-casadas, com irmãos ou sem
podemos existir hoje e não há cem. Se escrevo, já não sou mais como um cão tentando atuar. É mais fácil ser mulher hoje, do que há cem anos. Há coisas inventadas por mulheres, há empresas dirigidas por mulheres. E femininas jogadoras de futebol e condutoras de ônibus. É sem dúvida , mais fácil ser mulher hoje do que há cem anos. Mesmo no Irã, sob o véu do Islã, há algo mais macio. Um útero já não pesa nem produz como há um século.
Um homem já não se impõe como há dez décadas. E ainda que doa a liberdade, é mais fácil hoje do que há cem anos. Subimos montanhas, ganhamos o Nobel, cruzamos oceanos. Ainda não pisamos na lua, mas nos desdobramos, desdobráveis que somos, muito mais do que se imaginava há cem anos.

E por fim, com certo gosto, podemos revidar:
- É mais fácil pra um homem existir hoje
ou há cem anos?

flor nascente

Uma flor que nascendo parte o homem em dois. Esse era o antídoto. Fosse feito de dentro brotasse.O espanto desse nascimento vencendo o que se crê mais duro e por fim se abre em brecha de amor para o que nasce. O destino, das coisas que teriam que nascer quando já se anunciava o secar. O que feito foi pra irromper, nada impede. Só os os olhos de espanto sobre o que sabido era. Então que espanto? Não o pela coisa em si, mas o de saber que já tudo pressentimos, vem escrito em nós , ainda que poucos, ou mínimas vezes, nos dignamos a ler. A bula da vida que nos vem impressa, o espanto pelo esquecimento e o lembrar entranhados na flor nascente.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

picassismos

Naquela tarde, suspensa entre verão e inverno, havia uma ânsia. Aí surgiu dentro de meu olhar, um entendimento. Pude quase sentir e escutar, no silêncio da casa, a faísca e o estalo da compreensão.
O chá de boldo já adquiria a tonalidade verde-escuro-amargo perfeita para o gole. Sentei-me, o livro de Picasso sobre a mesa. Essa seria a função do dia: folhear Picasso. Ainda sem saber que dele brotariam cúbicas reflexões.
As pessoas desfiguradas ali, os olhos verticais. Pescoços que não sustentavam cabeças, chãos que não construíam retidões. Mas a beleza repousando exata.
Também, de mim, vindo uma lembrança: sempre desconfiei de gente figurativa demais, com cabelos renascentistas, sapatos que luzem, costuras que não desfiam, camisas que não amassam. Ou a ordem excessiva, de estantes de livros novos, de jogo de louça completo combinado com os copos, me assinalando um tipo particular de morte interna. E ainda aquele homem, cuja presença me havia feito experimentar o gosto de ruína e desespero.
Picasso, era então como o provérbio chinês: desconstruía para manter a essência. Banal, comum o lugar, mas assim, assim era. Mesmo do violão desconectando planos conseguimos imaginar a música de uma chuva tórrida sobre suas cordas não-paralelas. A desconstrução do visível para mostrar, o que , num descuido, desenxergamos.



A minha vontade de só falar tão silêncio,que mais baixo não se escute. Mergulho nas bolinhas da piscina e me diluo. Porque tudo corre enquanto eu: socorro! Me desintegro na massa oca do dia, ontem nada pesa. Nem há cheiro, dor ou textura no cotidiano chapado , impresso e vendido diariamente. Neste business building não há sótãos onde se ler história sem fim comendo uma maçã. Formigando o salário no fim de mês, diluída na multidão de escarpins e terninhos, escovas, crachás e promoções...haverá vida depois do capitalismo?

Isla Negra

As ondas do mar tramam
uma rede que nada pesca.

Tecem e
destecem,
Retecem,
tecem
a efêmera renda
que de alvura
tudo cobre,
nada segura.

Toda sobre,
por invisível mão
lançada.

Língua de rendada água,
que lambe o sal e não se salga
ou de Sísifo uma lembrança,
a agarrar o que eternamente lhe escapa?

Tessitura incessante, insone
que se faz e refaz,
toda uma, a mesma
sempre e nunca.

Envolve e não retém
o que pra
sempre vem
e
sempre vai.